Seabras, do conde de Viana

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Seabras, do conde de Viana

#410271 | zgomes | 06 Dez 2018 10:15

Caros confrades,

Quando hoje, tal como faço todos os dias, consultei no Geneall a agenda dos aniversários, deparei-me com a condessa de Viana, cliquei na página e dali passei logo ao filho porque me chamou a atenção o apelido: lembro-me que era Seabra quando foi feito conde, e agora é Menezes. Mudou de nome? Mais insólito ainda é que os costados que o Geneall agora apresenta não têm nenhuma semelhança com os que lá estavam há uns anos atrás quando lhe deram o título, que aliás foi tema muito discutido neste Forum e por isso guardei algumas memórias. Lembro-me que havia havia muita gente no Brasil, onde eram juizes e fidalgos da Casa Imperial, havia avós Correia de Lacerda, havia Brederodes e também, claro, uma linha de Seabras que, se bem me lembro, ia parar ao Lucas de Seabra da Silva. Nada disto lá está agora. É tudo gente de Álvares, no concelho de Góis e de Torres Novas, ligados à agricultura e ao comércio, e deixou de se perceber por que linha lhe vem o apelido Seabra.
Ao fim do dia, quando chegar a casa, vou procurar a árvore de costados que naquela altura imprimi, para tentar perceber agora estas diferenças.

A irregularidade com que venho ao Forum talvez me tenha feito perder algum episódio deste história mas pesquisei e não encontrei nada. Algum dos confrades vem acompanhando estas alterações ou conhece a explicação para esta mudança tão radical do contexto social e familiar do actual conde de Viana? Estou curioso.
Cumprimentos
José Gomes

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#410281 | FilipeFlard | 06 Dez 2018 17:39 | Em resposta a: #410271

Confrade José Gomes,

Não posso explicar a novel ascendência do Conde de Viana, mas já receio que um certo "marquês", figura arquiconhecida nos meios pseudonobiliárquicos lusobrasileiros, possa ter dado causa a tais alterações.

Cordiais cumprimentos,

Filipe

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#410283 | FilipeFlard | 06 Dez 2018 17:42 | Em resposta a: #410281

Faz um tempo que cá não aparece, mas o conde fazia muitas intervenções neste fórum, algumas das quais parecem confirmar as alterações de que fala o confrade:

https://geneall.net/pt/forum-user/2341/jbdes/

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#410296 | zgomes | 06 Dez 2018 23:23 | Em resposta a: #410281

Caro Confrade Filipe,

Obrigado pela sua ajuda. Não faço a menor ideia a que "marquês" se refere e menos ainda que intervenção possa ele ter tido neste assunto.

Houve alguma precipitação minha hoje de manhã talvez motivada pela pressa e sobretudo pela estupefacção quando deparei com a página dos costados do conde de Viana e as mudanças que notei. Agora à noite com mais calma e á vista da árvore de costados que guardei há uns anos atrás e depois de navegar pelas páginas dos antepassados dele, as coisas ficaram mais claras, penso eu.

As fontes que sustentam a nova versão dos costados do conde de Viana resultam de uma investigação genealógica feita pelo próprio Geneall o que significa que o que agora lá está é o que constará dos documentos autênticos e o que estava antes era uma fantasia cuja autoria desconheço mas não me consta que esteja publicada em livro. Se a invenção de todos aqueles nomes pomposos que não entroncavam com ninguém não foi do próprio conde, teve pelo menos a sua concordância ao longo de todos os anos em que esteve publicada aqui no site, o que não deixa de ser intrigante.

Na árvore que tinha guardado estão realmente os tais Correias de Lacerda de que me lembrava, e o apelido Brederode que desapareceu e de que o conde fala no tópico que mandou no link estava na linha Bandeira do Amaral do lado da mãe. Sendo eles donos de "grande parte de Copacabana", seria por certo gente muito rica e importante. Sempre estranhei não aparecerem no livro dos Brederodes nem nos jornais brasileiros. Ou melhor, nos jornais do Brasil encontrei mas sem o Brederode. O António Homem Bandeira de Melo que morreu em 1896 (antes da venda do vasto património que o conde relata ter-se passado depois de 1913) aparece como praticante no Ministério dos Negócios Estrangeiros e ajudante do bibliotecário da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro... Estes "empregozitos" deviam ser extravagâncias de milionário, advinho eu! O conde de Viana (ou Vianna, como ele escreve) é, como bem disse e eu me lembro, frequentador deste Forum e não deixará certamente de vir aqui ajudar-nos a esclarecer todas estas dúvidas.

Obrigado mais uma vez
José Gomes

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#410305 | zgomes | 07 Dez 2018 13:34 | Em resposta a: #410296

Para entretenimento dos confrades que têm como eu a paixão da genealogia, transcrevo aqui, sem ser exaustivo porque a fantasia é muito mais vasta, as diferenças até aos bisavós entre a realidade e a ficção nos costados do actual conde de Viana:

----------------A realidade ---------------------------------------------A ficcção -------------------------------------------------
1. Aires Alves Seabra 1902-1984---------------1. Aires de Seabra 1901-1984
2. Manuel Alves 1858-1913-----------------------2. Manuel de Seabra 1868-1913
3. Maria do Rosário Henriques 1880-1958-- 3. Maria do Rosário de (sic) Henriques 1880-1958
4. José Alves, lavrador --------------------------- 4. Henrique Correia Homem Alves de Lacerda, juiz
5. Joaquina Rita ----------------------------------- 5. Maria Ana Correia de Lacerda Seabra da Silva 1832
6. Joaquim Henriques Filipe -------------------- 6. Pedro Félix Henriques e Mello Bacelar 1850
7. Generosa Henriques -------------------------- 7. Maria do Rosário de Araújo Bacelar de Vasconcelos 1855
8. João Alves --------------------------------------- 8. Henrique Correia de Lacerda 1801-1899
9. Joaquina Maria --------------------------------- 9. Maria Antónia de Melo 1810-1840
10. Manuel de Almeida Tomé -------------------10. Pedro Correia de Lacerda 1803-1855
11. Maria Rosa --------------------------------------11. Eugénia Seabra da Silva
12. António Henriques Filipe --------------------12. António Maria de Seabra de Mello 1812-1900
13. Josefa Maria Alves----------------------------13. Ana Rita Catarina Henriques de Mello Bulhões
14. José Henriques Barreto ---------------------14. Luís Pereira de Abreu Bacelar 1807
15. Maria Henriques -------------------------------15. Maria de Salles Pimentel de Araújo 1825-1870

À parte o "de" a preceder um apelido patronímico, esta Maria do Rosário (nº 3) é a única em que nomes e datas coincidem. Ao contrário dela, o nosso 1º Rei era um homem mais simples e não usava Afonso de Henriques...

Estou muito curioso em saber quem terá sido o autor desta ficção, ou melhor, desta grosseira falsificação genealógica como nunca tinha visto nada parecido!

Cumprimentos
José Gomes

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#410307 | FilipeFlard | 07 Dez 2018 14:08 | Em resposta a: #410271

Caro confrade José Gomes,

É uma história antiga e um tanto complicada, mas parece que há duas pessoas, uma aquém e outra além mar, a usar o título de marquês de Viana:
https://geneall.net/pt/forum/158006/quem-e-eduardo-nedehf/
Suspeitei que as inconsistências na base de dados poderiam estar relacionadas às aldrabices já debatidas neste fórum. Por isso aludi ao "marquês".

De resto, as divergências entre ambas as árvores são realmente fantásticas! Parecem costados de duas pessoas diferentes!

Cordiais cumprimentos,

Filipe

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#410375 | Geneall | 11 Dez 2018 16:37 | Em resposta a: #410271

Depois do escândalo público que constituiu a maior patranha genealógica do século XX revelada neste Forum sobre um suposto ramo da família Aboim Guerreiro, admitimos então que, a partir de ali, mais ninguém ousasse repetir a mesma asneira e utilizar o Geneall ou qualquer outro meio, para difundir genealogias falsificadas e travestir gente indiferenciada em fidalgos de primeira plana.

Infelizmente, o vexame que deveria ter servido de exemplo e nunca mais se repetir, acabou por fazer escola entre gente menos séria. Pusemos fim agora à maior patranha genealógica do século XXI.

Utilizando o formulário de sugestões de correcções que está disponível no Geneall desde a primeira hora, José Manuel Seabra foi paulatinamente construindo aqui uma enorme fantasia, tendo o cuidado de começar por falsificar datas e locais dos antepassados mais recentes e que ele bem conheceu – o que nos dificultou a tarefa de confirmação - e, à medida que ia recuando nas gerações, foi galopando num crescendo delirante de efabulações que ia convertendo em nobres e fidalgos os que eram, em boa verdade, merceeiros, carpinteiros, camponeses, escravos, criados de servir, tanoeiros e costureiras.

De facto, nenhum daqueles nomes sonantes entroncava com quem quer que fosse. Entretanto, José Manuel Seabra tinha sido agraciado pelo INP com o título de conde de Viana.

Muito recentemente, um confrade do Fórum trouxe de novo o tema para actualidade. Acabara de verificar que nada do que estava publicado correspondia à verdade genealógica. Confirmada sem qualquer margem para dúvidas a falsificação - propositada, deliberada - da genealogia que José Seabra nos tinha enviado, rectificámo-la de imediato e repusemos a verdade. Tarefa que não está ainda terminada porque, apercebemo-nos entretanto, não foi apenas a linha paterna que ele falsificou mas também a linha materna.

Para quem, como nós, entende a Genealogia como uma Ciência auxiliar da História, resulta sempre em mistério o que pode levar alguém a renegar sem pudor os seus antepassados, mudando-lhes os nomes, as datas e os locais de nascimento, casamento e morte e atribuindo-lhes um contexto social que não tem a menor semelhança com a realidade.

Se erros são inevitáveis em Genealogia, corrigi-los e desmascará-los quando são grosseiros e propositados faz também parte da tarefa dos genealogistas e, como tantas vezes temos repetido, o Geneall é um "laboratório" de Genealogia onde, a todo o momento, é possível alterar os dados e impedir, com isto, que as falsificações se eternizem.

Vamos novamente esperar que, depois de mais esta vergonha, os falsários meditem duas vezes antes de se aventurar por esta senda criminosa. Porque, como em seu tempo, o presidente Lincoln disse: "pode enganar-se todos durante algum tempo; pode enganar-se alguns o tempo todo. Mas não se pode enganar todos o tempo todo".

E, como mais prosaicamente em Portugal diz o povo, "quem o alheio veste, na praça o despe".

Geneall

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#410396 | FilipeFlard | 12 Dez 2018 02:08 | Em resposta a: #410375

Por um momento, fiquei sem palavras. Que absurdo!

Tomando ciência de toda essa patranha, não pude deixar de me perguntar:
Que árvore genealógica terá Sua Excelência apresentado ao INP para receber tal mercê?
Se foi a verdadeira, muito bem; se foi a falsa, mal fez o conde e mais mal ainda fez o INP.

É triste.

Cumprimentos,

Filipe

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#410401 | zgomes | 12 Dez 2018 08:48 | Em resposta a: #410271

Estava à vista o que o Geneall revela agora: o falsário era mesmo o próprio "conde de Vianna". "Elementar, meu caro Watson!", diria o Sherlock Holmes. Sendo filho e neto único, era o único beneficiário desta patranha.

José Seabra, que agora é, ao que parece, José Menezes quando, afinal de contas deveria chamar-se simplesmente José Alves (Alves, abreviatura de Álvares, terra natal dos seus antepassados) é a epítome do que os franceses definem como "arriviste" ou "parvenu". Não existe, em português, uma tradução adequada para estes dois termos.

As gerações mais novas, que já não estudaram francês no liceu, terão mais dificuldade em perceber a etimologia da palavra. Atrevo-me, por isso, a dar aqui uma ajudinha: "arriver" (de que saiu arriviste) significa chegar. Tentando traduzir "à letra", arriviste será o que "está a chegar". Ou, talvez melhor, o que "pretendia ou "o que gostava de chegar".

É um tipo de gente, complexada socialmente, que sempre existiu e foi magistralmente retratada pelo grande Eça de Queirós no seu romance "Os Maias" na personagem do famoso Dâmaso Salcede. Também aqui abro um parentesis para as mesmas gerações mais novas que, ao contrário de nós, mais velhos, nunca tiveram "Os Maias" como leitura obrigatória no liceu. E para facilitar, reproduzo a descrição que dele faz a Wikipédia: "Mesquinho, mentiroso e convencido, provinciano e tacanho, tem como única preocupação na vida o "chic a valer". Eça apresenta-o baixo e gordo. Não faço ideia se é o caso do falsário, que nunca o vi, para que esta descrição lhe assente como um fatinho à medida.

Figura absolutamente desconhecida na sociedade lisboeta em que a pulso tentou penetrar, revelou pelos seus actos ter "como única preocupação na vida o "chic a valer". E, exactamente por ser "provinciano e tacanho" e viver deslumbrado com o glamour de um estrato social a que não pertencia, delineou com as suas notórias faltas de sentido comum e de conhecimentos, um plano para conseguir lá chegar. Que incluiu esta e outras falsidades.

Mas, como escreveu um escritor francês, "o que caracteriza os arrivistas é que eles não chegam nunca ao lugar onde pretendiam chegar como, pior do que isso, não chegam sequer a sair do lugar da partida". José Alves, ou José Seabra, ou José Menezes, é disto um exemplo paradigmático: poderá ter conseguido pelos meios ínvios que agora conhecemos, um título de conde. Mas continua a não sair do mesmo sítio nem chegar a lado nenhum. E nem mesmo mascarando, a si e aos seus humildes avós, de fidalgos, deixará de ser um "bobo da corte" para continuar a animar as nossas noites de tertúlia (têm sido uma galhofa!), um Dâmaso Salcede do século XXI, com a particularidade de, além de "mesquinho, mentiroso e convencido, provinciano e tacanho", ser também um falsificador de genealogias (sem grande talento acrescentaria).

Há-de ter ganho muito com isto! Que lhe faça bom proveito são os votos sinceros do
José Gomes

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#410403 | natercia7 | 12 Dez 2018 14:04 | Em resposta a: #410401

Bom dia. O que é de pasmar é a falta de rigor do INP. Cpts Natércia

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#410414 | LBdeMS | 13 Dez 2018 01:30 | Em resposta a: #410403

O INP não tem nada a haver com este assunto da falsificação de dados. As falsificaçöes foram feitas na via paterna. O reconhecimento do titulo pelo INP, é por via materna, linha sobejamente conhecida.
Mcpts
LBdeMS

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#410415 | zgomes | 13 Dez 2018 01:32 | Em resposta a: #410271

Caros Natércia e Filipe,

Não me surpreenderia nada que o filho do senhor Arlindo se tivesse apresentado no INP com os "prints" da sua fantasiosa árvore de costados. Mas, ao fazê-lo, não tinha outro objectivo que não fosse pôr o INP em sentido diante de um verdadeiro fidalgo da mais elevada nobreza. Era, digamos assim, um simples "cartão de visita" para o contextualizar no seio da aristocracia nacional e internacional (além da portuguesa, as grandes nobrezas brasileira e a espanhola corriam-lhe no sangue!). Mas nada mais do que isso. Porque a família do senhor Arlindo não era para ali chamada. A candidatura dele ao lugar de conde que estava para preencher vinha pela mãe e não pelo pai.

Revelada que está pelo Geneall a patranha dos antepassados, vamos à patranha do título que os confrades Filipe e Natércia aqui levantam...

1. O último titular legítimo foi o 4º marquês, Luis José da Gama Berquó, falecido em 1984. Não tendo tido descendência do seu casamento, seriam legítimas sucessoras suas irmãs. Mas nenhuma delas casou. A talhe de foice, parece que o celibato ou a ausência de filhos nos casamentos, é uma tónica recorrente nesta família Berquó. E seria preciso por isso recuar várias gerações para encontrar quem, de direito, pudesse reclamar a representação do título Viana.

2. Salvo melhor opinião, penso que a representação legítima está hoje no actual marquês de Tancos. Mas, tanto quanto se sabe, o próprio não a terá reclamado e o nosso José Alves-Seabra-Menezes resolveu antecipar-se e tentar a sua sorte.

3. No primeiro "round" do assalto ao INP, José-Alves-Seabra-Menezes, movido pelo pânico que a bastardia da mãe o impedisse de chegar onde queria, tirou da cartola um argumento demolidor e definitivo: segundo ele, el-rei D. Manuel II, em 1931, tinha escrito uma "carta de legitimação" daquelas duas irmãs bastardas, a mais nova das quais era a sua própria mãe. A perplexidade foi grande e generalizada para quem teve conhecimento desta carta: estaria el-rei D. Manuel II em seu perfeito juízo quando redigiu uma "carta de legitimação" anacrónica e sem qualquer valor legal, sobrepondo-se à autoridade que competia em exclusivo ao Ministério da Justiça da república portuguesa que já ia no seu 20º ano de vigência e cuja legitimidade o próprio rei há muito reconhecera? Essa carta virou, imediatamente, fruto de curiosidade de toda a gente! Para serenar as expectativas, Seabra esclareceu finalmente: a carta tinha desaparecido! Oooooooooh! Que azar!!! Obra do demónio, está bem de ver...

Neste (cómico) episódio valerá a pena notar-se a subliminar homenagem que o putativo futuro conde pretendia prestar ao nosso último rei, enaltecendo a sua admirável visão premunitória e a particular preocupação que lhe consumia os dias e atormentava as noites na ânsia inquebrantável de assegurar uma sucessão legítima da Casa Viana sob o risco de, a não se efectivar, o país se afundar irremediavelmente. É que,:apesar de em 1931, o legítimo 4º marquês estar vivo e na flor dos seus 21 anos, o rei já antevia que, 6 anos depois, ele iria morrer solteiro e sem descendência. Mais vale prevenir que remediar, terá pensado o monarca! E, saindo em defesa e protecção daquelas duas pequerruchas escreveu-a em 1931, também já prevendo que no ano seguinte seria a morte a "surpreendê-lo" a Ele. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje!

Esta primeira patranha do candidato a conde teria sido suficiente para que o INP ficasse na posse de todos os elementos de que precisaria para avaliar as qualidades morais, éticas e de carácter do aldrabão candidato a conde. Mas, num gesto largo, liberal e moscovita, deu-lhe nova oportunidade. Mandaram-no para casa com uma palmadita nas costas e esta recomendação: "inventa outra estória, que esta da carta D. Manuel II é tão pateta e absurda que não pega nem com cola de contacto, quanto mais com cuspo!". Tens de aparecer com outros argumentos mais sólidos! E ele foi. Mas perder uma batalha não é perder a guerra. E o Gama que lhe corre nas veias há-de ser o mesmo de um líder como o avô Vasco que chegou à Índia! Não desanimou nem desarmou.

Os argumentos que usou no segundo round foram certamente os exigidos: sólidos e definitivos. Quais tenham sido, deixo à imaginação de cada um porque as decisões do INP são sigilosas e secretas. O certo, o resultado práctico, é que o INP lhe fez, uma por uma, todas as vontades. Mas foram argumentos verdadeiramente sólidos, temos de admitir!

Ao fazê-lo, as irregularidades foram tantas que só mesmo o INP poderá esclarecê-as, o que bem podemos esperar sentados. A ver:

1º Por morte do jovem 3º marquês em 1937, as legítimas sucessoras seriam as irmãs. Mas, mais uma vez na família, eram todas solteiras. E a única irmã que, sendo solteira (e tendo morrido solteira), tinha, ainda assim, descendência, era Maria Jesuina da Saúde. A vida que levou, pouco "ortodoxa" para a moral e os bons costumes da época, digamos assim - logo que o pai morreu, saiu de casa aos 20 anos para viver com um jovem da sua idade um romance de que nasceram duas filhas. E uns anos mais tarde, juntou-se com um homem casado com quem teve mais três filhos, dois varões e uma filha, esta vida pouca ortodoxa, dizia, levou a que sua mãe, D. Maria Amália, amargurada e envergonhada com a vida menos decorosa da filha, requeresse expressamente ao então Conselho de Nobreza para que esta fosse afastada da sucessão o que, muito naturalmente, foi entendido e seguido, razão pela qual o título saiu desta linha e passou a uma linha colateral, de um primo, Luis José da Gama Berquó, que foi de facto o último titular legítimo e 4º marquês de Viana, falecido em 1984 que referi lá em cima.

Estando a linha de Maria Jesuina da Saúde, como disse, afastada da sucessão no título - resultado do que poderá entender-se, para facilitar a compreensão do caso, como uma abdicação expressa de sua mãe, para si e seus descendentes, mal se entende que o INP voltasse atrás com uma anterior decisão do Conselho de Nobreza e restituísse a esta linha o direito de sucessão no título. Mas foi exactamente o que o INP fez. Porque José-Alves-Seabra-Menezes era filho da segunda das 3 bastardas desta Maria Jesuina, pediu que fosse assim e o INP satisfez-lhe a vontade.

2º Admitindo, por uma curiosidade académica, como legítimo este "regresso" da sucessão à linha (anteriormente e legalmente excluída, insisto) de Maria Jesuina, importa ter presente que, como disse acima, de duas das suas relações extra-conjugais que se conhecem deixou no total 5 filhos: dois varões e três filhas. Mantendo-se ainda hoje em Portugal a regra da precedência das linhas masculinas sobre as femininas, mal se entende que o INP tenha concedido os títulos a duas filhas de Maria Jesuina, ficando o filho varão sobrevivente (o outro morrera entretanto) a ver passar o navio... Mas era a única solução para José-Alves-Seabra-Menezes ir a conde, ele pediu e o INP fez-lhe a vontade.

3º Finalmente: os títulos de marquês e de conde de Viana foram sempre sempre usados pelo mesmo titular. Mal se entende esta peregrina decisão do INP em separá-los pela primeira vez na história daquela Casa e distribui-los salomonicamente pelas duas irmãs. É muito óbvio o porquê desta decisão que, evidentemente, não foi uma iniciativa de motu proprio do INP. José-Alves-Seabra-Menezes não teria tido todo este trabalho se não tivesse a garantia de que, ao sair a porta do INP, levaria consigo a fatiota de conde pronta e a estrear! Deu-lhe tanto trabalho, tanta canseira, tanta mentira!!! Mas sendo sua mãe filha 2ª, só mesmo dividindo o título em dois permitiria a José-Alves-Seabra-Menezes ir a conde. E tudo se resolve: a tia vai a marquesa, a mãe a condessa! Ele pediu e o INP, mais uma vez, fez-lhe a vontade...

Chegado nesse dia a casa, o nosso José terá dado saltos e saltos de contentamento: "Mamã! Mamã! Sou conde!". Já levava pronta e debaixo do braço a minuta de renúncia da mãezinha para que imediatamente ela a assinasse, não fosse o diabo tecê-las! Já se tinha perdido a carta de D. Manuel II a legitimá-la, não vá agora perder-se esta também! Carta de renúncia que a senhora prontamente assinou, suspirando: "enfim... mais vale condessa por um dia que doméstica toda a vida... (Tenho ideia de já ter ouvido isto nalgum lado, pensou para si mesma). Olhe, que seja tudo pela felicidade do meu Zélito!" E, enquanto olhava embevecida para a felicidade que resplandecia do seu lindo menino, tão esperto e tão bom filho, completou, para si mesma: sim senhor, isto é o que se chama uma casa 100% fidalga! Somos só dois mas uma é condessa, nunca se deixa de ser, vá, e um é conde. Amanhã já aviso a porteira como é que me deve passar a chamar... E vou mandar fazer cartões de visita novos. Na sequências destes íntimos pensamentos, retomou a conversa com o filho:
- Josélito filho, se por acaso a mamã mandar fazer cartões de visita novos, que tenho os meus a acabar, achas que por baixo do meu nome tenho que pôr "ex-condessa de Vianna"?
- Não sei, mamã, mas amanhã telefono para o INP a perguntar. Mas acho que não, mamã... Olha, não ponhas o "ex"! A fingir que ainda eras quando os mandaste fazer! Como bem sabes, eu não gosto nada de mentir! Mas não pores o "ex" não prejudica ninguém. E fica mais chic sem o "ex".
- E não achas que devíamos pôr um brasão de pedra aqui no 1º Dtº ? Mas mais puxado para o nosso lado para os do 1º esquerdo não se aproveitarem!
- Tens razão, mamã, temos que pôr! Ainda não tinha pensado nisso...

Estiraçado no "maple", passou rapidamente os olhos pelo móvel da salinha das visitas, depois, também num relance, pela grande moldura dourada da sua árvore do costados, tão bonita e colorida pela profusão dos brasões dos seus ilustres ancestrais e, finalmente, fixando-os no tecto, rematou sonhador e sorridente: é mesmo chic a valer!...

E aqui temos, resumidamente, a linda e edificante história do nosso conde da Patranha! De Vianna, queria eu dizer!

Até amanhã, que esta novela é empolgante!
José Gomes

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#410416 | FilipeFlard | 13 Dez 2018 02:42 | Em resposta a: #410271

Caros confrades Natércia, José e Luís,

Longe de mim atirar pedras ao INP, mas a falsificação, segundo a equipe do GeneAll, estendeu-se também à linha materna:

“Confirmada sem qualquer margem para dúvidas a falsificação - propositada, deliberada - da genealogia que José Seabra nos tinha enviado, rectificámo-la de imediato e repusemos a verdade. Tarefa que não está ainda terminada porque, apercebemo-nos entretanto, não foi apenas a linha paterna que ele falsificou mas TAMBÉM A LINHA MATERNA.”

Por estranha que pareça a sucessão descrita pelo confrade José, suponho que a decisão do INP poderá ter levado em conta:
1 - Que os títulos não são de juro e herdade e ninguém com melhor direito pretendeu neles se encartar (em Espanha, quando aparece herdeiro com melhor direito a reclamar, o título pode mudar de mãos);
2 - Que não caberia à mãe, consorte do falecido titular, pleitear ao Conselho de Nobreza a exclusão da filha da linha de sucessão; e
3 - Que os títulos têm muitos séculos e não convém que se extingam.

Basta isso, porém, para superar o óbice da filiação ilegítima?
Se o Senhor Dom Duarte assim decidisse, creio que sim. O INP, contudo, é uma associação de direito privado, à qual não caberia exercer as prerrogativas próprias do Chefe da Casa Real, razão por que ainda tudo me parece muito estranho...

Seja como for, nessas questões de que sei muito pouco curvo-me ao parecer de quem mais sabe.

Cordiais cumprimentos,

Filipe

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Retificação

#410417 | FilipeFlard | 13 Dez 2018 02:49 | Em resposta a: #410271

Onde escrevi:
“2 - Que não caberia à mãe, consorte do falecido titular, pleitear ao Conselho de Nobreza a exclusão da filha da linha de sucessão;”

Ler:
“2 - Que não caberia à mãe pleitear ao Conselho de Nobreza a exclusão da filha da linha de sucessão;”

Com o que quero dizer que a senhora poderia renunciar por si, mas não por seus descendentes já nascidos ao tempo da renúncia.

Cumprimentos,

Filipe

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#410418 | zgomes | 13 Dez 2018 03:15 | Em resposta a: #410414

Caro confrade LBdeMS

Permita-me discordar desta sua intervenção. Confessando-me absolutamente ignorante relativamente aos critérios que o INP utiliza na concessão de títulos, parece que os valores éticos e morais dos candidatos não são, em nenhum momento, tidos em conta e menos ainda determinantes para as suas decisões.

E este caso do conde de "Vianna" é, nessa perspectiva, paradigmático. Se é verdade que a linha paterna de José Seabra não tem qualquer influência na representação jurídica do título, não é menos verdade que, tendo ou não, estamos na presença de um falsário. O que pareceria incompatível com os direitos e deveres de um fidalgo.

Por outro lado, se a falsificação dos dados familiares tivesse alguma importância para o INP e fosse uma condicionante para o acesso ao título por via materna, sem ter ainda tido tempo para analisar em toda a sua extensão e com maior detalhe toda esta patranha genealógica, posso já assegurar-lhe - como aliás o Geneall já aqui disse - que Seabra não se limitou, de facto, a falsificar apenas a linha paterna. A linha materna - a que chama "sobejamente conhecida" - foi, também ela, grosseiramente "retocada" em várias linhas.

Deixo-lhe hoje apenas dois exemplos: à mãe de João Alfredo de Faria, de quem Maria Jesuina era filha, Seabra decidiu chamar "Cláudia Matilde de Faria e Freitas". Chamava-se, na verdade, Cláudia Matilde Mendes e o pai, Joaquim Mendes, era um simples tanoeiro, fabricante de pipas de vinho, onde não há vestígios daqueles dois apelidos mais pomposos de Freitas ou Faria. E na mulher de João Maria da Gama Berquó (a quem Seabra, de sua lavra, acrescentou Manoel de Menezes, apelidos que ele nunca usou), chamou "Amália Quintanilha Bandeira Homem Brederode do Amaral", "enxertando-lhe" um "Brederode" que não lhe pertence e é, apenas e só, fruto da delirante imaginação do notável protagonista desta novela.

Mas como disse, na questão da atribuição do título pelo INP, a falsificação - ou seja, a obra de um falsificador - parece ser irrelevante. À vista do que aqui temos, não parece que, para o INP, a qualidade moral dos candidatos tenha qualquer importância no momento de lhes conceder a nobreza que um título nobiliárquico supõe, como por aqui fica, parece-me, demonstrado.

Cumprimentos
José Gomes

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#410419 | zgomes | 13 Dez 2018 03:52 | Em resposta a: #410416

Caro Filipe,

Não consta, antes pelo contrário,que D. Maria Amália tenha "pleitado".nem pelas regras então (e ainda) em vigor o poderia fazer. Viana não era, além do mais, um título de juro e herdade.Tanto quanto é conhecido, limitou-se a pedir ao CN que, a revalidar-se o título, não fosse feita essa revalidação na filha que ela não considerava digna de o ostentar e indicou o primo como desejado sucessor. Quaisquer que tenham sido as condições em que este processo decorreu, a verdade é que, em termos prácticos, o Conselho de Nobreza, acolheu esta "sugestão" e revalidou, de facto, o título no primo indicado por D. Maria Amália. O que tem, subjacente, parece-me óbvio, o afastamento desta linha e a sua transmissão para outra, decisão que, além do mais, em nenhum momento foi contestado pela única filha ainda viva de D. Maria Amália - Maria Jesuina - que, por esta decisão soberana do CN, ficara implicitamente afastada da sucessão.À data da morte desta, em 1951, era legítimo marquês e conde de Viana o referido primo. Na sua morte, sem filhos, a sucessão recairia noutra linha, mais ou menos próxima deste marquês. Em nenhum momento, parece-me, voltaria a uma linha que já tinha sido definitivamente afastada.

Mas não sou jurista, não sou especialista em direito nobiliárquico, não conheço sequer os beneficiários das decisões que foram tomadas. E tudo isto que aqui venho deduzindo baseia-se exclusivamente no que conheço da História de Portugal, do que era a tradição e a regra nestes casos, em intuição, em lógica e em bom senso. Asseguro desde já que admito, perfeitamente, estar errado. E que serei o primeiro a dar a mão à palmatória perante argumentos que demonstrem o meu erro. Venham eles, que o tema é interessante e didáctico para todos nós.

Cumprimentos
José Gomes

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Seabras, do conde de Viana

#410420 | natercia7 | 13 Dez 2018 08:09 | Em resposta a: #410417

Muito agradecida pour me ter respondido pessoalmente. Encontra-se que nada conheço nestes trâmites, e que a minha mensagem era ùnicamente de "bom senso", se mo permitem. Cumprimentos Natércia

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Seabras, do conde de Viana

#410429 | FilipeFlard | 13 Dez 2018 13:58 | Em resposta a: #410271

Caro José,

Estou de acordo. Com pleitear, não quis dizer requerer em juízo, o que não seria mesmo possível, mas sim requerer no sentido mais amplo de pedir ou solicitar.

O que poderá ter levado o INP a "rever" a decisão do CN é a existência, ao tempo do óbito do 3º marquês, de irmãs e sobrinhas que, em regra, não poderiam ser excluídas da sucessão. Para voltar à linha anterior, porém, penso que o INP teria de reconhecer que o 4º marquês nunca o foi, o que não se fez (e nem se poderia fazer). Inexplicável esse vai e volta de linhas...

Também não se explica como foi superada a circunstância da filiação ilegítima, seja ela natural (de pais solteiros, que podem casar) ou bastarda (de pais casados, que não podem casar).
Para relembar um famoso precedente, basta dizer que a aplicação de um critério similar no caso do ducado de Cadaval resolveria a disputa entre as duas duquesas passando o título ao meio-irmão delas e fazendo um duque.

À míngua de documentação que explique tudo isso e considerando que o INP nada dirá, o que podemos esperar é que os beneficiários de suas decisões venham a público defendê-las. Não creio, entretanto, que o farão, já que isso chamaria atenção para as tais árvores genealógicas.

Para tornar a novela ainda mais esdrúxula, há ainda no Brasil o Sr. Nedehf, que diz que o 5º marquês é ele...
Que belo rocambole!

Cordiais cumprimentos,

Filipe

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Seabras, do conde de Viana

#410490 | zgomes | 14 Dez 2018 23:22 | Em resposta a: #410414

Caro Confrade LBdeMS

Ontem, devido ao adiantado da hora a que lhe escrevi depois de um jantar animado de amigos onde este assunto foi mais uma vez tema de conversa - primeiro numa perspectiva mais séria, à luz das regras e do Direito, depois mais divertido, para sobremesa, à custa da vertente cómica que esta novela encerra, conclui hoje não tenha sido tão claro como pretendia.

Na minha perspectiva, é absolutamente irrelevante qual foi a linha que ele falsificou, onde falsificou mais ou falsificou menos, se na paterna se na materna. Podia até não ter falsificado a sua própria árvore de costados e falsificado "apenas" a árvore de costados do vizinho do 1º esquerdo! Mais ainda: dada a sua manifesta incompetência e ignorância na Ciência (aquele "de Henriques" é de palmatória!), podia nem ser falsificador de genealogias e ter falsificado "apenas" notas de 5 euros, ou chaves de automóveis topo de gama ou de segunda-mão ou de residências luxuosas do Estoril ou de casas em bairros mais económicos nos arredores de Lisboa. O relevante aqui é que o "conde" é um falsário, um falsificador. Ponto final.

É o carácter do indivíduo que estamos a analisar à luz do Direito em geral e do Nobiliárquico em particular. E não a sua profissão nem especialização. Bem podia ser merceeiro, carpinteiro ou tanoeiro e ser um honesto e digno continuador das lojas ou oficinas dos seus avós mais chegados.

Mas, meu caro confrade LBdeMS, o seu raciocínio em defesa do INP pode, no limite, levar até este absurdo: "o homem é de facto um assassino! Mas atenção, ele matou a avó paterna para lhe ficar com o dinheiro mas deixou viva a avó materna, que é a representante do título. E é isso que importa ao INP!" Será?!!!...

É evidente que, neste caso em concrecto, sendo obrigatória - como era na vigência do Conselho de Nobreza e presumo que continue a ser no INP - a entrega da genealogia materna, surpreende (no mínimo!) que os técnicos e especialistas do INP nestas matérias não se tenham sequer preocupado "primeiramente" em analisá-la, verificá-la e confirmá-la, o que rapidamente lhes teria permitido aperceber-se da falsificação. Se é assombrosa e deixa qualquer um estupefacto a falsificação na linha paterna (parecem de duas pessoas diferentes, como aqui escreveu o confrade Filipe), a falsificação é talvez menos óbvia (nesta, pelo menos, nunca mudou os nomes próprios nem locais e datas) e é, talvez, menos importante no "Manoel de Menezes" que acrescentou ao bisavô Gama Berquó - provavelmente para justificar o que já se desenhava na sua mente, a futura mudança de nome para José de Menezes, muito mais "chic a valer" que José Seabra. Mas já é muito mais importante no "Brederode" que "enxertou" em D. Maria Amália (com o que, parece óbvio, pretendeu sugerir uma relação familiar com os duques de Palmela, por exemplo, também muito mais "chic a valer") ou o "Faria e Freitas" na trisavó Cláudia Matilde Mendes. Ao contrário de Mendes, "Faria e Freitas" já soa a gente da "casta" da ilha da Madeira, menos dada ao pequeno comércio a retalho e à manufactura.

E, neste mesmo sentido e sem me pretender estender muito, recordo aqui, com a devida vénia, os fundamentos essenciais que o Senhor D. Duarte Nuno, então Chefe da Casa Real, estabeleceu como condição "sine qua non" para a revalidação de títulos, quando em 1945 instituiu o Conselho de Nobreza, de que o INP é o sucessor, nas atribuições e pelos vistos não só... Reproduzo o artigo 11º:

"Nenhum direito nobiliárquico, mesmo anterior, será reconhecido sem primeiramente (sic!) se ter verificado ao candidato ou possuidor, o bom exercício das suas qualidades como cristão, como português e como Meu servidor."

Reconhecido o direito, parece que foi. Mas, concordará, frontalmente ao arrepio deste artigo.

Não conheço o conde e não me posso por isso pronunciar sobre as suas qualidades de português e de servidor da Casa Real. (Aristides de Sousa Mendes foi inquestionavelmente um "bom português" e um verdadeiro herói quando falsificou passaportes para salvar milhares de judeus da câmara de gaz dos nazis!) Mas sou católico, sou cristão e conheço bem as regras, que me esforço cada dia por cumprir. A trave-mestra do bom cristão são os 10 mandamentos de Moisés, que conheço de cór desde os tempos da catequese. E entre eles, lembrarei aqui:

Honrar pai e mãe
Não prestar falsos testemunhos
Não cobiçar a coisa alheia

1. "Honrar pai e mãe" pretende evidentemente abranger as "mil gerações" de que Moisés fala noutro dos mandamentos. Mudar os nomes e as identidades dos avós não é, convenhamos, uma especial homenagem que Seabra preste à sua própria família de quem, manifestamente, ele tem vergonha.
2. O falso testemunho é por demasiado evidente e dispensa mais comentários.
3. Finalmente, Seabra sabia perfeitamente desde a primeira hora que estava a cobiçar um título que não lhe pertencia. E por isso começou com a falsa carta de D. Manuel II para tentar enganar os incautos. Não lhe tendo corrido bem este expediente, usou outros "argumentos" que todos desconhecemos porque estão no segredo dos deuses do INP. Resta saber se não encomendou a algum colega seu da "Escola Secundária de Falsificação e Afins" uma carta manuscrita de D. Manuel II em papel timbrado e da época que nenhuma perícia grafotécnica ousou questionar a autenticidade e a apresentou, excitado, no INP. "Encontrei-a, finalmente! Estava no fundo dum baú no sótão de um dos palácios da avó, misturada com as outras milhares de cartas que D. Manuel, que era muito lá de casa, lhe escrevia diariamente, sempre a mandar-lhe imensas bênçãos, imensas lembranças, imensas legitimações e assim! Adoro Ele!" E para tentar distrair os membros do INP, que por nada desta vida tiravam os olhos da carta, continuou "A minha avó Amália dizia sempre que ele era "muito simpático e bem educado". A Amália Rodrigues, que era uma mulher do povo e muito fã da minha Avó, copiava-a em tudo! E copiou-lhe também esta frase e dizia o mesmo do Alain Oulman. "Muito simpático e bem educado"... É giro, não é? Coisas de Amálias..."

Sobre a cobiça, fui ao Google buscar a versão mais completa que diz "Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem cobiçarás a mulher (está implícito, pelo que vem a seguir, que também o homem) do teu próximo, nem seus servos ou servas, nem seu boi ou jumento, nem coisa alguma que lhe pertença". Sobre esta matéria, a avó Maria Jesuína que Seabra invoca como alegada representante do título que ele cobiçava para ele, "dá cartas", como noutra minha intervenção já expliquei sobre a sua "agitada" vida sentimental.

Resumindo e concluído: não parece que nem Seabra nem a avó Maria Jesuina sejam exactamente, à luz dos 10 mandamentos, os melhores exemplos de bons cristãos a seguir nem que, um como o outro, não estejam perfeitamente enquadrados no alvo das justificadas preocupações do Senhor D. Duarte Nuno quando escreveu o que escreveu na introdução do diploma que instituiu o Conselho de Nobreza e começa assim: "Tendo tomado conhecimento de que a falta duma entidade que regule e discipline (sic) a Nobreza está a prejudicar o crédito e o prestígio da instituição (sic) [...], facilitando principalmente a exibição de títulos, alguns dos quais arbitrários, outros usados em contravenção das leis (sic) e regras nobiliárquicas (sic), outros ainda, o que é pior, usados fora da lei (sic) e do aprumo da Nobreza (sic)".

Não é necessário acrescentar mais nada, verdade?

Era isto que queria deixar mais claro e peço desculpa se não consegui ser mais sucinto. Mas deixo-me embalar, desde que comecei a seguir esta novela...

Cumprimentos
José Gomes

PS-Aqueles "sic" todos parecem soluços de quem acabou de rir à gargalhada (como de facto aconteceu nuns parágrafos atrás quando, por enfado e por instantes, fiz zapping e mudei de canal e de novela, de que peço desculpa). Mas pretendem apenas ser um "reforço" ou "sublinhado" das sábias palavras de S.A. (Inépcia minha, não sei como se fazem sublinhados no Forum, que às vezes me davam tanto jeito...)

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